Na manhã de 26 de maio, o Auditório da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Dr. Horácio Bento de Gouveia deixou, por algumas horas, de ser apenas um espaço escolar para se transformar num lugar de encontro entre a literatura, a memória e a emoção. A visita da escritora madeirense Valentina Silva Ferreira, autora do romance A Casa das Malvas, proporcionou à comunidade educativa um momento raro, daqueles que se vivem com todos os sentidos e que permanecem na memória muito depois de terminarem.
Quem entrou no auditório percebeu imediatamente que algo diferente estava a acontecer. O palco, cuidadosamente preparado pelas professoras do Grupo de Português, parecia prolongar o universo do romance para fora das páginas. As malvas, o alecrim e a alfazema perfumavam discretamente o espaço, enquanto uma pá e uma enxada repousavam junto às plantas, como se tivessem acabado de ser deixadas por alguém que regressaria para continuar a cavar a terra. E, de certa forma, era isso que ali acontecia: escavavam-se memórias, desenterravam-se histórias e davam-se nomes a silêncios antigos. Cada elemento da decoração contribuía para criar uma atmosfera de rara beleza, convidando o público a atravessar a porta simbólica daquela casa onde o passado continua vivo e onde a terra guarda, pacientemente, os seus segredos.
A sessão foi construída de forma original, cruzando literatura, dramatização e reflexão. As alunas Carolina, Ana e Isabela deram voz a preocupações muito presentes no universo dos jovens: a pressão das redes sociais, a necessidade de aprovação, a dificuldade em lidar com o silêncio e a procura constante de identidade. Através de um diálogo vivo e próximo da realidade dos alunos, mostraram que os temas presentes em A Casa das Malvas não pertencem apenas ao passado ou às personagens do livro; continuam a fazer parte das inquietações de quem cresce no mundo de hoje.
Ao longo da conversa, Valentina Silva Ferreira revelou-se exatamente como os seus leitores a imaginam: próxima, generosa e profundamente atenta às pessoas. Falou do processo de escrita, da construção das personagens e da importância da escuta, mostrando que as histórias nascem muitas vezes dos lugares onde a maioria de nós passa apressadamente sem reparar. As suas palavras deixaram claro que escrever é, antes de mais, um exercício de atenção ao outro.
A participação dos alunos foi igualmente notável. As perguntas colocadas revelaram leitura, curiosidade e sensibilidade, conduzindo a conversa por caminhos inesperados e profundamente enriquecedores. Uma das participantes descreveu a experiência como um verdadeiro «desbloqueio criativo», explicando que a autora ajudou o público a perceber que a imaginação não vive presa a fórmulas ou regras rígidas, mas cresce precisamente nos espaços de silêncio, nas memórias guardadas e nas perguntas que ainda não encontraram resposta.
A própria Valentina Silva Ferreira não escondeu o seu entusiasmo perante a forma como a atividade foi concebida e vivida pela comunidade escolar. Numa publicação posterior, destacou a qualidade da apresentação, a originalidade do guião, a utilização de técnicas teatrais e o modo como os alunos conseguiram conduzir uma conversa profunda e sensível em torno da obra. A escritora mostrou-se particularmente tocada pelo ambiente criado no auditório, pelo cuidado colocado em cada detalhe da decoração e pelo envolvimento de todos os participantes, considerando este encontro uma das mais belas e significativas conversas realizadas sobre A Casa das Malvas. As suas palavras constituem um reconhecimento do trabalho desenvolvido pela escola e um incentivo para que a literatura continue a ser vivida como um espaço de descoberta, reflexão e partilha (https://www.facebook.com/share/p/18XipK3Xot/).
Num tempo em que tantas vezes se procura longe aquilo que existe perto, este encontro serviu também para lembrar a importância de valorizar os criadores da nossa terra. Valentina Silva Ferreira é uma voz maior da literatura madeirense contemporânea, capaz de transformar experiências humanas profundas em narrativas que nos interpelam e emocionam. Através da sua escrita — e também do trabalho que desenvolve diariamente junto das pessoas e das comunidades — ajuda-nos a compreender melhor quem somos, os silêncios que herdamos e as histórias que transportamos. A Escola Dr. Horácio Bento de Gouveia agradece sinceramente a disponibilidade, a simpatia e a inspiração que a autora trouxe consigo. Foi uma manhã de literatura, certamente, mas também de humanidade, de escuta e de descoberta. Uma manhã que cheirou a malvas, a alecrim e a alfazema; uma manhã em que os livros saíram das páginas para se sentarem connosco. E são precisamente esses momentos que justificam a existência da escola como espaço de cultura, de encontro e de crescimento



